domingo, 18 de abril de 2010

Terapia robótica para membro superior de hemiplégicos

Robot-assisted therapy for long-term upper-limb impairment after stroke

Esta semana foi divulgado antecipadamente mais um estudo de efetividade de recurso tecnológico para o tratamento de disfunções neurológicas, mais especificamente, pós AVC. Um grupo de pesquisadores americanos propôs a utilização de um equipamento robótico para auxiliar a recuperação da função do membro superior de hemiplégicos crônicos no “The New England Journal of Medicine” (fator de impacto = 50,017) 1 (artigo completo, vídeo).

O estudo clínico controlado, randomizado e multicêntrico, envolveu 127 participantes com disfunções moderadas e graves do membro superior de pelo menos 6 meses. 49 pacientes receberam sessões intensivas de fisioterapia assistida por robô (intensive robot-assisted therapy), 50 receberam fisioterapia intensiva (alongamentos assistidos, atividades de estabilização escapular, exercícios para o braço e alcance funcional) e 28, cuidados usuais (cuidados médicos quando necessários e em alguns casos serviços de reabilitação). As foram realizadas 3 vezes por semana, por 1 hora em 12 semanas. Os desfechos foram avaliados cegamente, conforme as funções motoras (Fugl-Meyer, Teste de Wolf e Escala do Impacto do AVC) ao final das 12 semanas e após 36 semanas.

Após os 3 primeiros meses, os resultados alcançados nos pacientes submetidos a fisioterapia intensiva foram melhores que os submetidos a fisioterapia com o equipamento robótico, mas segundo os autores, não estatisticamente significante. Os resultados se repetiram no seguimento após 36 semanas. Ambos os grupos recuperaram-se mais do que no grupo com cuidados usuais.

Fonte: http://www.rehab.research.va.gov/jour/05/42/5/finley.html

Comentário 1: mais evidências de que cuidados fisioterapêuticos e/ou multiprofissionais devem prevalecer aos cuidados clínicos isolados, ou seja, fisioterapia é fundamental para a melhora funcional.

Comentário 2: nem sempre “tecnologia dura”, ou seja, recursos tecnológicos palpáveis, são custo-efetiva. Este estudo, aparentemente, não demonstrou vantagens da assistência com robô, mas deixou claro sua equivalência aos outros grupos, todos submetidos ao tratamento fisioterapêutico.

Cramer, em editorial a ser publicado no mesmo número da revista, destacou a possibilidade de modificação do status motor de pacientes com disfunções crônicas causadas por lesões cerebrais, o que sinalizou grandes esperanças em pesquisas futuras com intuíto de reduzir incapacidades após AVC2.

Além disso, segundo Cramer, robôs podem trabalhar de forma consistente e precisa por longos períodos sem fadiga, podem modular tempo e intensidade do treinamento de forma reprodutível, com uma reduzida necessidade de vigilância, podem mensurar o desempenho durante a terapia2. Assim, a "robotização" da fisioterapia poderia ser, aparentemente, "mais confiável" e eficiente.

Comentário 3: Numa análise de custos, os autores demonstram equivalência entre os grupos. Acredito porém, que o custo inicial para instrumentalização (aquisição do equipamento), pode impactar no custo/preço final, afetando a tomada de decisão ao se pensar na prática clínica.

Comentário 4: Há longo prazo, quem sabe o processo de reabilitação "em linha de produção" e "robotizado" possa valer o investimento, mas desfechos como satisfação do usuários devem ser mensurados como desfecho clínico também.

Por enquanto, aguardamos os efeitos desta linha de pesquisa.

Referências:

1. Lo AC, Guarino PD, Richards LG, Haselkorn JK, Wittenberg GF, Federman DG, et al. Robot-assisted therapy for long-term upper-limb impairment after stroke. The New England journal of medicine. 2010 16 abril; In press.

2. Cramer SC. Brain Repair after Stroke. The New England journal of medicine. 2010 16 abril;In press.

3 comentários:

Ines Baptista disse...

Boa noite!
O tema da monografia do meu grupo está relacionado com este tema e achei que lhe poderia pedir alguma opinião. Gostaria de saber o que poderia ser alvo de uma revisão sistemática realizada por nós dentro do tema da robótica e fisioterapia.
Estamos a entrar em pânico. :S
Obrigada!

Cumprimentos,
Inês Baptista

Ines Baptista disse...

Será que me pode ajudar?
O tema do nosso trabalho final de curso é a Robótica na Fisioterapia e teremos que realizar uma revisão sistemática, mas não sabemos que "problema" pode ser utilizado e interessante e possível de ser utilizado na realização de uma Revisão Sistemática.
Agradecia muito se me pudesse dizer qualquer coisa.
Obrigada!

Cumprimentos,
Inês Baptista

Lázaro Juliano Teixeira disse...

Olá Inês Baptista:
Obrigado pela audiência e comentário. Penso que uma revisão sistemática sobre o assunto seria muito bem vinda, pois acredito que devam existir outros estudos a este respeito desde a publicação destes comentários.
Para isso, uma boa orientação com professores conhecedores e experientes com a metodologia é necessária.
Desejo boa sorte e guardo interesse por saber os resultados depois que concluíres o estudo.
Abraços e até mais, Lázaro